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Creativity, hackers, and other stuff

Below you'll find an article that I wrote to my local Mac users group. I haven't had the time to translate it into english, so unless you are willing to learn portuguese, you'll have to wait a bit.

But for those that share my mother tongue, here it is.


(para quem leu a versão na mailing-list, tem apenas pequenas alterações de estilo, e um "Resumindo:" lá pelo meio)

A discussão que está a acontecer sobre o iPad, o efeito do modelo fechado e controlado pela Apple, e o que ele trás à criatividade e ao espirito hacker (no sentido cosquinhas, curioso, e não no sentido cracker) está mesmo muito interessante.

Acho que a questão da criatividade, que pelo que percebi começa com o post do Tim Bray que termina com a frase "For creative people, this device is nothing" é uma falsa questão.

Sinceramente, o bias natural do Tim Bray para a plataforma Android baralhou-lhe as ideias temporariamente. Basta apontar o trabalho do nosso Jorge Colombo com as capas da New Yorker como contra exemplo do seu argumento.

Mas mesmo que ele estivesse a dizer criativo como programador/developer, seria falso. Ninguém programa para o Android no próprio device. Estes devices não são computadores que possam existir no vácuo, são apêndices aos computadores que vamos ter em casa, ou no emprego.

O único contexto em que se pode ver o iPhone/iPad como limitadores de criatividade é nas politicas de aprovação da AppStore. Tudo o resto está disponível.


A parte de discussão sobre hackers é muito mais perto do meu coração. Tanto quanto pude ver começa com esta frase do Alex Payne:

The thing that bothers me most about the iPad is this: if I had an iPad rather than a real computer as a kid, I’d never be a programmer today.

Apenas é possível concordar com isso se se pensar que o iPad será o nosso único computador, e claramente que não foi desenhado para isso. Mark Pilgrim parece concordar com esta visão negra do futuro dos hackers:

Once upon a time, Apple made the machines that made me who I am. I became who I am by tinkering. Now it seems they’re doing everything in their power to stop my kids from finding that sense of wonder. Apple has declared war on the tinkerers of the world.

O meu percurso (assim como de outros nesta lista, estou seguro) é semelhante ao do Mark: primeiro computador aos 11, começar a programar aos 12, 13 em BASIC e depois Assembler; começar a montar os seus próprios PCs; usar Pascal, C; usar minix, linux porque nos dava o controlo da nossa máquina; o querer saber como funciona, desmanchar, abrir, mudar. No meu caso sempre fugi um pouco da parte electrónica da coisa, não me dou com electrónica, e mais focado na parte de software low-level.

Mas respondendo à pergunta: será que o iPad vai limitar a próxima geração de hackers? Eu podia dizer que não e explicar as minhas razões, mas acho que a Gina Trapani tem uma resposta bem melhor que qq coisa que eu poderia escrever:

Because while we're all ranting about how closed the iPad will be, the jailbreak community is planning competitions to see who can crack it first. The sun isn't setting on tinkerers; their desire to crack things open intensifies when faced with something that's closed by design. The challenge is part of the appeal.

...

I'm of the mind that if someone wants to tinker, they will tinker, period. Because it's in their DNA, not because it's easy, and because by nature, tinkerers don't play by the rules.

A parte que eu posso acrescentar à discussão é esta: em 1991, na Universidade do Minho, a vasta maioria dos alunos não tinha acesso à internet. Não tinham mail, ainda não havia Web nem browsers, começava a aparecer usenet. Nesse tempo, quem andava pelos centros de informática, ou estava lá o menor tempo possível para fazer os seus trabalhos e ir embora, ou então pertencia ao grupo de pessoas que queria perceber tudo, como é que aquilo funcionava, como usar (e abusar) do sistema. Era uma "guerra" contra os administradores de sistema, porque era divertido. O que se fazia era programar, aprender e trocar conhecimento. Não havia outro sitio onde o fazer.

Durante os anos em que o acesso começou a aparecer, 92 e 93, apenas esse grupo lhe prestou atenção. Era uma fonte de conhecimento inesgotável e finalmente disponível. Despertava o nosso sentido de saber mais. Se tivesse de dar um nome a este período, seria a nossa explosão cambriana.

Esse aceso não nos transformou em colectores passivos de informação. Apenas nos deu mais energia para as próximas experiências.

Mas a partir de 94, altura em que os browsers Web começaram a ficar acessíveis às massas, começaram a aparecer uma nova tribo. Passavam horas e horas nos centro de informática a consumir informação, mas sem produzir informação. Lembro-me de discutir isto com a minha tribo e alguém (sinceramente não me lembro do nome dele) dizer "mas isto é o que se espera de pessoas normais". Sem dúvida que o nosso "hubris" tecnológico já estava presente e separava-nos das "pessoas normais" :).

Resumindo: não é possível julgar um device ou um comportamento que esse device facilita da mesma forma pela tribo dos hackers e pelo resto das pessoas normais.

A verdade é que para muitas pessoas, o que é importante não é se o sistema é aberto, às cores, hack-able, ou não. O que interessa é que com ele consigam fazer as tarefas simples do dia-a-dia sem as preocupações que apenas devem (ou deviam) existir na cabeça dos profissionais de IT.

Relembrando o artigo da Gina: ...someone wants to tinker, they will tinker, period. Because it's in their DNA, not because it's easy...

Penso em pessoas como a minha mãe, ou a minha tia, que por mais brilhantes e cultas que sejam (e claramente o são mais do que eu) não se sentem à vontade em usar um desktop clássico (Windows XP, Vista, 7, e Mac OS X) sem se baralharem.

Uma parte do artigo do Fraser Spiers:

Secretly, I suspect, we technologists quite liked the idea that Normals would be dependent on us for our technological shamanism. Those incantations that only we can perform to heal their computers, those oracular proclamations that we make over the future and the blessings we bestow on purchasing choices.

...

Those of us who patiently, day after day, explain to a child or colleague that the reason there's no Print item in the File menu is because, although the Pages document is filling the screen, Finder is actually the frontmost application and it doesn't have any windows open, understand what's happening here.

Ao olhar para os defeitos que a minha tribo atribui a esta nova plataforma, e seguindo um pouco a classificação dos mesmos que o artigo do Luke Wroblewski usa, podemos tentar vê-los do ponto de vista de uma "pessoa normal".

Quando se fala de multitasking, temos de clarificar exactamente o que queremos dizer com isso: correr várias aplicações ou partes delas ao mesmo tempo. De base, tanto o iPhone como o iPad, são um sistema multi-task, e apenas a limitação artificial da Apple em correr apenas uma aplicação ao mesmo tempo nos impede de o fazer.

Acho que é fácil de provar que a maioria das pessoas se baralha com multi-task. Basta pensar em todas as pessoas que já vimos a usar o Windows com todas as apps maximizadas, uma de cada vez. Ou de ver os problemas com o menu File > Print que o Fraser nos fala acima.

É claro que mudar rapidamente entre aplicações é importante, e essas mesmas pessoas o fazem, mas para tal não é necessário que a aplicação destino esteja a correr, desde que a ilusão criada pelo sistema operativo esteja bem feita.

Sem dúvida que várias features que a nossa tribo pensa em colocar nas suas aplicações passam por ter um processo em background a fazer qualquer coisa. Mas até as limitações actuais nas baterias estarem resolvidas, é possível argumentar que esses serviços devem ser feitos no nosso Mac/PC principal, e deixar a esse a tarefa de notificar o device que temos informação importante para ele, com a opção de enviar um link para a mesma informação que o device, transparentemente e sem a intervenção da app, obtem da rede para passar à app na próxima oportunidade.

Existem certas coisas que não são possíveis neste cenario, que normalmente envolvem informação que só o device pode ter (como o Bordalo nos diz, o Android dele adapta-se ao sitio onde está), mas até essas podem aparecer no futuro como um serviço do OS, disponível a todas as aplicações.

Quanto a não ter o plugin de Flash no Mobile Safari, já escrevi hoje sobre isso; resumindo a minha visão da coisa, era importante ter a opção de correr Flash no iPad, mas dispenso claramente de o ter dentro do browser, até porque as utilizações mais práticas que tenho para ele, estão (ou estarão) disponíveis via HTML5.

Todo o processo de aprovação da AppStore, e as barreiras à distribuição de aplicações são aspectos claramente negativos, apesar de dar origem a alguns episódios cómicos dignos de Kafka. Neste aspecto, acho que um compromisso pode surgir em que todas as apps tem de ser assinadas pela Apple (existem vantagens claras nisso), mas a distribuição pode ser via Web.

Uma coisa pouco discutida, é o facto de os i{Pad,Phone}'s não mostrarem o filesystem aos utilizadores. Segundo parece, no iPad, os ficheiros da aplicação ficam guardados numa pasta dentro da aplicação (que pode ser exportada para o Mac/PC via file sharing), de forma a que quando se remove uma App, tudo o que está associado a essa App desapareça (é giro cruzar esta funcionalidade com a alteração do Mac OS X relativamente a deixar cair o suporte a creator codes).

Cada app fica com a responsabilidade de mostrar os seus documentos, e se acham que isso é anormal, é porque não tem prestado atenção ao que o iTunes e iPhoto andam a fazer à anos: a esconder o file system com uma visão do mesmo ajustada à tarefa, ou tipo de documentos, que estão a ser manipulados.

Será que isso escala para muitos documentos? Olhando para o iTunes e iPhoto parece que sim, mas é possível argumentar que só funciona nesses casos porque apenas consumimos os documentos, não os alteramos profundamente, como numa aplicação do iWork.

É sem dúvida uma questão de volume de documentos, e faz mais uma vez lembrar que o iPad não pode ser um computador autónomo, sem o Mac/Pc para o acompanhar.

Mas olhando para as limitações como decisões conscientes de design, é importante ter uma coisa em conta: a nível de hardware, o iPad não nos limita em termos de user-inteface porque todo o seu UI é gerado por software (excepção única à ausência de camara que para mim é ainda hoje um grande mistério). Logo tudo o que nós hoje vemos como limitação, pode ser alterado, ou removido no futuro. Veja-se o que aconteceu com copy-paste nos iPhone's.


Como conclusão: para todos os efeitos, eu coloco-me claramente na tribo dos hackers. Ainda hoje continuo a abrir e fechar computadores como forma de hardware porn, principalmente máquinas antigas; ainda hoje continuo a continuar a ler e comprar livros para perceber como funcionam estes devices que nos intrigam; ainda hoje perco^Winvisto uma data de tempo todos os dias a estudar e a aprender com outros.

Por isso a minha posição sobre a politica da Apple não podia ser diferente daquela que a Gina Trapani tem:

First, know that I fundamentally agree with Alex and Mark: the closed nature of the iPad turns me off, and I wouldn't give one to my kid if I were encouraging her to learn about how computers work.

...

Even though I am critical of the iPad's closed nature and agree with Mark and Alex, I won't go as far as Alex did and say that it represents a dystopian future. I have more faith in our future tinkerers than that.

Mas a verdade é que eu não quero ser apenas hacker, e existem ocasiões em que é muito agradável desligar essa parte da minha vida para me concentrar no que está à minha volta, e nessas alturas, ter um device que me trate abaixo das minhas capacidades para o dominar, é uma trégua simpática.

Acho que a tribo está ao rubro porque este gadjet não é para eles, e isso é algo a que não estamos habituados.

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